Vida, moda e consumo consciente

March 14, 2019

Aproveitando o dia do consumidor para te contar um pouco mais da minha trajetória e de como encontrei uma maneira de trabalhar com moda da qual me orgulho.

 

Sustentabilidade de berço

Meus pais curtem uma economia e sempre se preocuparam com o planeta. Acho que porque ele viram os efeitos da poluição rolando, dia a dia. Então, quando criança meu exemplo de relação com o meio ambiente sempre foi exemplar. 

 

 
Lembro de quando tinha uns 8 anos e participei de um evento no rio Tietê. Era uma iniciativa de limpeza, que teria fim (e sucesso) em 2005. Oxe! Depois disso, tenho uma memória do meu pai participar de uma palestra da tetrapak sobre reciclagem. Lembro que um tempo depois ele enviou até carta para o departamento responsável, para tirar suas dúvidas. Junto com a resposta, recebeu uma régua de plástico feita a partir da reciclagem das embalagens. E foi como se me assegurasse que as boas intenções salvariam o nosso planeta. Simples assim!

 
Na praia, desde que tem casa, tem o ritual de reciclagem das latinhas. Todos os meus amigos conhecem e tiram sarro. Não importa! Tem que lavar a lata, tirar o lacre e reservar e, por fim, amassar a latinha - pra ocupar menos espaço. Hoje, meus pais não acreditam mais no sistema público de reciclagem de São Sebastião e trazem tudo o que pode ser reciclado de volta para São Paulo. 

Eles também faziam “bombas de sementes” para serem arremessadas na Serra Mogi-Bertioga. Achavam que já havia menos árvores em alguns locais... O processo consistia em  embrulhar um monte de sementes em (uma) camada de guardanapo de papel. Quando eu digo uma camada, é uma MESMO. Sabe as 4 folhinhas sobrepostas que formam um guardanapo? Pois é. Só uma. E o que tinha de gente que buzinava e reclamava que eles estavam jogando lixo na serra! Tá achando uma família excêntrica? Peraí!

O conceito de moda escolar e o pré fast-fashion 

Já deu pra perceber que nunca foi opcional pra mim pensar em sustentabilidade, né!? Isso em uma época em que a própria palavra, sustentabilidade, nem existia nesse sentido. Mesmo assim, conectar a ideia de cuidar do mundo com o consumo de moda nem passava pela minha cabeça.

 

 Com uns 9 anos, uma das minhas brincadeiras favoritas era "roupa esquisita". Minha mãe tinha uma mala de roupas dos anos 70 e 80 e eu passava horas e horas no quartinho do fundo de casa fazendo as mais diversas composições. Também tive uma fase em que acreditava que era vampira e praticamente só me vestia assim! Alô Claudia Ohana! Então o caráter fantasia da roupa sempre existiu. Mas o diferenciador social não era vivenciado até aí. Apesar de existir e de eu ter consciência dele.

 

 

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                                                                      Nunca tive o tênis que todo mundo tem. E durante todo o ensino fundamental, I e II, não lembro de usar algo que não fosse bamba, conga ou all star. O Converse de hoje, que carrega elementos de rua, skate e compõe com vestido maravilhosamente, era apenas o substituto do bamba. Cheguei a ter um keds (!) no colegial. Taí uma época estranha em que bom mesmo era ser da turma popular e que os topetes reinavam. Só que meu cabelo sempre foi enrolado...

Consumir moda alternativa

 

Daí segui para uma fase clubber (botei link por que, né!? Faz tempo!). E meu programa favorito era ir ao Mercado Mundo Mix ou ao Mambo Bazar. Usava as roupas mais coloridas que encontrava e foi quando comecei a comprar de pequenos produtores. Nessa época eu já fazia um curso técnico em propaganda e marketing e queria trabalhar com roupas. Imaginava que seria estilista.

Pensando agora, não ter crescido toda trabalhada na pakalolo e nunca ter tido uma bolsa Santa Marinella foram essenciais para minha trajetória! (Valeu, mãe!)

Na faculdade, logo comecei a estagiar. Trocava salário por roupas de olhos fechados! Minhas marcas favoritas não eram tradicionais mas tinham qualidade. Comprei muita coisa boa, que usei até acabar, na A Mulher do Padre, Triton, Zapping e Zoomp. Algumas, tenho até hoje. 

High street fashion e a moda acessível 

Seis meses depois de formada, fui cursar uma especialização em comunicação de moda, em Londres. Já existia Zara em SP, mas o fenômeno do high street fashion é outra história. Um gigante do fast-fashion colado ao outro. Ruas inteirinhas de lojas. Moda democrática e acessível, variedades de estilo e de tamanho (petite, plus size).

Só com o que ganhava de gorjeta servindo mesas, comprava praticamente uma blusa por dia. Foi assim que eu nem vi o quanto comprei. Eu até já reparava nas etiquetas mas, em 2004, ainda não havia tanto acesso aos aspectos negativos desse tipo de comércio. Bangladesh, India, Turquia, China eram algumas das origens estampadas na etiquetas que usava. Lembro que quando encontrava algo produzido em Portugal considerava ótimo. 

Já reparava nos diferentes tecidos. Percebia a diferença do toque de um tecido natural para um sintético, mas ainda tinha pouca experiência com as composições. E haja viscolycra! Até hoje sou traumatizada com malha e uso raramente.

Antes de voltar para o Brasil, entupi o quanto pude minhas duas malas de 32 kilos cada. Hoje me pergunto quem precisa de tudo isso!? E o pior: por mais que entuchasse, sobrava a mesma quantidade de roupas para fora. Sabe aqueles sacos de lixo que cabem uma pessoa dentro? Deixei dois deles na rua quando fui embora. E, sinceramente, espero que alguém tenha pego. 

Hoje, não tenho nenhuma roupa que comprei nessa época. Tenho muitas de antes e algumas até que faziam parte da mala de roupa esquisita. Não sei bem quando a ficha caiu. Acho que ainda demorou um pouco. 

Sentindo o desafio da moda consciente na pele

 

 
De volta ao Brasil, em 2006, resolvi dar a cara a tapa e investir o que podia em uma loja e marca de roupas femininas: a Nanquim, que depois ganhou sócios e virou loja Cachalote. A ideia era ser uma marca produzida localmente, com costureiras que recebessem o valor justo pelo trabalho. Queria usar tecido natural e brasileiro. Oferecer exclusividade, poucas peças de cada modelo, modelagem original e uma grade acessível, que fosse do P ao GG e que vestisse bem todas as pessoas que conheço. 

E foi tapa depois de tapa. Encontrar tecido natural e brasileiro era difícil e, em pequena quantidade então, praticamente impossível. A realidade das costureiras era duríssima. Mesmo pagando um valor muito mais alto por peça, dependia dos intervalos das produções maiores nas oficinas com que trabalhava. Isso impactava nos prazos de recebimento e também no fluxo de caixa.

Em 2010 encerrei a marca. Bem quando o comércio online crescia e o Facebook se firmava como vitrine. Foi o timing, pessoal e empreendedor, que não bateu. Além aprender muito na marra, entendi ali a dinâmica e a sinergia entre sustentabilidade e moda. 

Escapes fashionistas

Mesmo assim, segui consumindo fast-fashion. Muitas vezes por ser a opção mais acessível. Mas também porque, até 2010, a democratização da moda brasileira teve muito a ver com marcas nacionais como Renner, Hering e Riachuelo, se fortalecendo para encarar o estrago que a entrada da Zara causou no setor. Lembrando que a reação à chegada da forever 21 ainda está rolando...

 

Também teve o boom do AliExpress. Acho que o que mais animava era sensação de que, sabendo procurar, seria possível conseguir qualquer coisa. O problema era que dois meses depois quando chegava, não era nada daquilo. Ainda bem que ”só” não se parecia com a foto, era feio ou de baixa qualidade. Nunca recebi um bilhete com um pedido de socorro ou sangue. Lenda urbana? Não gosto nem de pensar.

Dizer não ao fast fashion, eventualmente

Até hoje eu tenho um modo específico de andar numa Zara da vida. É como se desfocasse o olhar e enxergasse a profundidade total da loja. Assim consigo me movimentar pelo espaço e, ao mesmo tempo, tatear todas as peças no caminho à procura do toque ideal! Eu sei... Parecer doida é pouco!

Mesmo quando sem comprar, ainda experimentava muita coisa. Ainda experimento de vez em quando, ao acompanhar minha mãe ou alguma amiga. E claro que dá vontade de comprar! Todo mundo quer aquela sensação de prazer instantâneo, de preencher o vazio interno, mesmo que só por alguns minutos.

Quando minhas clientes complementam suas compras sozinhas no fast-fashion elas ficam preocupadas em me contar. Não é questão de ser radical e impor os meus parâmetros. Apesar de eu não indicar, é possível comprar em uma loja assim. Para isso é preciso saber observar diferentes tipos de tecido e a qualidade da costura. E, principalmente, saber exatamente do que precisa. O maior problema está aí. As 53 coleções que esse tipo de loja lança anualmente são pensadas para que você não faça uma compra planejada. Para que o impulso prevaleça e para que você compre mais do que o necessário. 

Consumo de moda online

Outro vilão da sustentabilidade no consumo de moda é comprar online. Nada contra, até porque pode ser bem prático. Se você já conhece a marca, o produto e sabe ler o guia de tamanhos, maravilha! Mas sem ver, experimentar ou tocar no produto, a chance de comprar algo que vai ficar encostado no armário é altíssima. Às vezes é o tecido que pinica, ou é transparente ou dá mal cheiro. Pode ser o caimento ou o comprimento, que parecia mais longo na foto... 


Antes de comprar, é sempre legal pensar:

• combina com a gente, em termos de estilo e cor?
•  temos outras peças em casa para montar pelo menos 3 looks com a peça?
• amei?
• vou usar mesmo? 
• vai durar mais do que dois meses? Como vou lavar?

• cai bem?
• já tenho outro item parecido? Preciso mesmo desse?

E se já é difícil fazer isso na loja, imagina naquela pausa entre um job e outro, ou assim que engoliu o almoço e antes do bebê acordar da soneca! 

Minha dica para compras online é fazer o carrinho por uns 3 dias seguidos e depois fechar o navegador sem comprar. Você vai ver que, na maior parte das vezes, isso te faz refletir sobre o que está comprando. E, quase sempre, percebemos que aquela peça tão especial na tela é bem parecida com outra que já temos, ou que já tivemos uma assim e nunca conseguimos usar.

Aprofunde-se no consumo consciente de moda

 
Procure saber o custo da produção de uma peça de roupa. Se você ama roupas, porque não mergulhar no mundo da costura e entender o tempo e a dedicação gastos no processo? Faça um curso ou participe de uma oficina de upcycling (tem esse da Agustina Comas, ó!) para renovar suas roupas!

Conheça feiras e as pessoas que produzem. Quem costura e vive das roupas que consumimos? Precisamos humanizar a industria da moda. Enxergar o trabalho, os rostos e as mãos de outras pessoas por trás de cada roupa enfileirada nas araras por aí.

Também vale visitar brechós para entender o impacto ambiental que causamos com os itens do nosso armário. Não adianta torcer o nariz. Já temos roupas suficientes no mundo para vestir (bem) todas as pessoas da Terra. Basta ter paciência, saber onde ir e o que procurar. 

E, em relação a shoppings, feiras e brechós tem outra vibe. Vai desfrutar de um clima muito mais solar e comunitário, vai!? Não tem babás empurrando carrinhos e mães cheias de sacolas. Não tem comprar algo porque te dá status. Tem comprar o que te faz feliz, sem deixar ninguém triste no processo. Comprar o que você acredita.

Eu abandonei o consumo de moda descartável. Continuo amando as roupas e continuo querendo as peças. Mas aprendi que sou responsável por bem mais do que a fatura do meu cartão de credito. Precisamos criar o futuro que queremos. E é urgente.

Você se identifica com tudo isso e quer aprender a consumir menos e melhor sem abrir mão de estilo? Vem comigo!

 

 

 

 

 

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